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Diário de Catarse: Bomba relógio



É estranho pensar em como as coisas têm funcionado. É estranho pensar em como meu corpo e minha alma sempre me pareceram autodestrutivos. Estou constantemente em luta contra um inimigo conhecido. Meu corpo quer morrer, minha alma quer morrer, todo meu ser quer partir...

 Fui ao médico há poucos meses e, sem que ele soubesse qualquer coisa de mim, me perguntou "Você sente muita tristeza?". Ele é um gastroenterologista, não deveria me perguntar nada disso, pensei. Mas, apesar da surpresa, fui completamente sincera sobre como me sinto todos os dias... "Sim, doutor, a tristeza é visita antiga."

Eu o procurei por sentir dores fortes no estômago e nas costas, por sentir muita sede, azia e uma fraqueza sem explicação. Após alguns exames, ele me disse que estou com o esôfago cheio de feridas e que preciso tomar antidepressivos. Eu não entendi e o questionei. O bom médico me disse que tudo o que sinto está muito relacionado ao emocional e que pode ter sido causado por ele. Se eu não controlar minhas emoções, sempre vou adoecer. Talvez não tenha sido uma grande revelação no final das contas.

Em uma ultrassonografia ao final do mês de julho de 2018 descobri que tenho cálculos na vesícula biliar. O único jeito de curar isso? Cirurgia. Já se foi algum dinheiro em médico e exames particulares, mas uma cirurgia particular sequer consigo imaginar como posso pagar. A fila pelo SUS, pelo que me explicaram, talvez só me garanta uma vaga para ser operada daqui há 8 meses, se eu tiver muita sorte.

Sabe, desde que comecei a trabalhar no início do ano passado eu chegava cantando de manhã, como a pessoa mais irritante da face da terra que tem a audácia de sorrir em uma segunda-feira. Chegava em casa pela tarde e agradecia pelo lençol macio e os cobertores cheirosos e fofos em que me deitava após o banho. Ficava tão satisfeita por morar em uma cidade calma e por ter pais tão bons e preocupados comigo. Agora tudo isso se foi e voltei a entrar e sair dos lugares sem muita percepção de que caminho ou existo. Estou esvaziando como um balão furado.

Me sinto estranha, fazendo tudo levemente alegre e levemente abatida, algo morno e frágil... Adoecer é mais uma desilusão para mim, mas é como se eu estivesse acostumada e o golpe fosse apenas vergonhoso. Como pude deixar a vida me enganar de que estava tudo bem depois de todas as vezes em que fez isso comigo? É como se não houvesse vitória alguma, como se eu tivesse sido ludibriada. Apesar disso, não consigo sentir qualquer coisa de modo significativo. Medo, raiva, tristeza ou alegria são sensações distantes. Estou anestesiada, pairando, flutuando vazia como uma casca oca, assustadoramente calma.

Nunca havia me sentido tão em paz como nos últimos dois anos. Cuidei tanto de mim para recuperar a destruição que a depressão havia deixado, mas estar doente agora, ter essas crises, chorar de dor no trabalho, sentir um sono insuportável, me ver abatida no espelho, sem forças para sair da cama e sem vontade de falar com ninguém porque o corpo não aguenta, tem me feito voltar ao que eu era quando a melancolia se deitava sobre meu peito. É como se eu tivesse adoecido tanto meu corpo por meio do adoecimento da minha mente que hoje não importa o que eu faça, meu corpo já não quer lutar. Ele está obedecendo ainda ao comando antigo da minha mente que o pedia para desistir, para parar de funcionar.

A depressão comeu meu corpo por dentro por muitos e muitos anos... Não é uma metáfora. Ela destruiu meu sono, minha alimentação e minha rotina, ela corroeu meus órgãos, estragou meu prazer de respirar, de sentir os alimentos, de caminhar e de dormir. A depressão levou minha saúde e agora tudo que tenho é um corpo que não reage, um corpo que adoece a qualquer toque do ambiente. Sinto outra vez a velha apatia diante da vida, como se a luta nunca tivesse terminado. Era apenas uma ilusão terrível desse inferno em que minha existência sempre esteve mergulhada.

Não sei em que ponto me tornei uma bomba relógio. Fico pensando quanto tempo as coisas vão permanecer assim. Nessa luta constante entre alegria e desespero, entre a sensação de prazer em ver os dias passarem e ao mesmo tempo um grande vazio que parece vir da minha carne, da minha constituição, como se jamais fosse me deixar totalmente.

Porém, de um modo arrepiante, a vida ainda tem feito sentido. O meu trabalho tem sido a prova do valor da minha existência. Todos os dias encontro pessoas como eu e estendo a mão, vejo quando elas sorriem, quando elas saem do abismo, quando me abraçam e partem deixando em mim um tão doce obrigado... Tenho vivido momentos verdadeiramente únicos com os seres humanos que me aparecem e nunca senti que estivesse tão certa do meu lugar no mundo.

Talvez, então, eu só precise esperar que os anos passem, talvez eu só precise existir como uma máquina de doces, como algo que pode dar alegria sem nunca senti-la.  Renuncio a mim para estar no lugar em que preciso estar pelo tempo em que meu corpo aguentar. Esta é a abnegação mais sagrada que já conheci.

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