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Diário de catarse: Os finais felizes são tristes


Os olhos se arregalam. O coração dispara. Vejo as paredes, o calendário, o sol brilhando pela fresta da janela. Ah, é domingo... E eu não tenho mais com que me preocupar. Nem correria, nem medo, e se eu não chegar lá? Não me questiono mais. Eu cheguei.
Esse é o final, "fechamento de ciclo", como dizem. Mas não gosto dessa expressão, não circulei, não voltei ao mesmo lugar da partida. Eu nem mesmo sei como voltar. É como se chegasse finalmente ao pico da montanha que levei anos para subir. E agora? Sento-me, olho para os lados. Algo no vento gelado me leva à melancolia. Penso logo em outra montanha para subir. Em qual? Em que lugar? E, de repente, o mundo me parece uma loja de departamentos outra vez.
Me ergo, me agarro e me perco. Na esperança, no antigo e no tédio. Em que parte de mim irei parar? O sonho caiu, embrulhado para presente, com fita vermelha sob a árvore de natal. É meu, pronto, bonito e reluzente. O cartão diz "De mim para mim, com todo o meu amor". Coloco em meu bolso, olho pela janela e não sinto nada. Penso em voltar ao conhecido, ao conforto da busca. Mas me lembro de que busca não há mais.
Amputado o sonho, ele ainda pulsa. Como uma veia insistente. Como um rabo de lagarto que se mexe mesmo cortado do lagarto. Coisas estranhas... O que quero mesmo é sentir aquela felicidade com que tanto sonhei. Mas ela está presa em algum canto de mim. E é frustrante não conseguir ficar contente, não conseguir encontrar a euforia, o grito de guerra, de alívio... Não ainda...
O sonho era um vasilhame em que me depositei. E retirada dele, me derramo em um vazio estranho, em um nada, à procura de outro lugar para me juntar outra vez. As partículas, à deriva, se esquecem um pouco do caminho. É o momento de planejar, pois a vida é vasta e curta demais. E o sonhador quer tudo que há.
Pisco um pouco mais forte, para sentir que sou eu mesma, e que essa é minha vida. Ainda estou deitada e, por um momento, gostaria de ficar o dia todo ali, sob o lençol. Porém, coloco os pés para fora e me faço levantar. Penso que é assim que tenho feito meus amanhãs.
A cada dia acredito mais na verdadeira necessidade de estar assim. Colocando os pés, as mãos, os olhos para fora, alguma coisa que me faça sair contra a vontade. Há o outro lado do vazio, que muitos não conseguem entender. Ele não é um espaço, mas um tempo. Necessita ser gasto, não importa com o quê.
A criança não quer ir a aula, não quer ir ao dentista, não quer pentear o cabelo. A mãe é quem obriga. Mas quando crescemos e não queremos viver, nós mesmos temos que nos obrigar. Então crescer é meio que isso, se colocar no colo, se dar tapas, se dar conselhos e mesmo ouvir e ponderar seus medos, convencendo a si mesmo que não há monstro lá fora, do mesmo jeito que não havia debaixo da cama.
E o final da novela, depois do felizes para sempre, a gente sempre esperar que aconteça algo mágico. Mas o que acontece é que todos voltam a suas vidas tão normais e nada extraordinárias.
Isso é o assustador. 

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