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Diário de catarse: Melindre e melancolia


Na noite de domingo não há alegria. Não há alegria no abrir dos olhos em uma segunda-feira de manhã. Não há alegria, pois a vida não está certa. Entortou, parou, enferrujou.
 De cada amor o que sobrou foi medo. O dedão do pé já está em carne viva de tanto tropeço. Onde há certeza de que estamos fazendo o certo?
 Triste, qualquer palavra áspera me dói. Alegre, qualquer palavra áspera me dói. Um melindrar inteiro. Estou sempre como se vivesse em uma constante corda bamba. O mínimo de desequilíbrio e o tombo é feio, violento, esmagador. Mas me reergo, cambaleio, trato as feridas e subo outra vez. Será que um dia saberei fazer isso direito?
 Deprimida, não acordo simplesmente. Meu estômago dói junto ao abrir dos olhos em uma rotineira angústia há muitos, muitos anos. Tenho de me encorajar e dizer que está tudo bem, que ninguém irá me fazer mal se eu for até a padaria, ou à praça, à aula, ou ao trabalho. Por vezes entendo perfeitamente que estou mentindo e por isso não consigo me convencer a sair.
 Deprimida, não almoço simplesmente. Por vezes nem me lembro, outras vezes como até passar mal, ou mais recentemente me sinto enojada e indigna de me alimentar. Quando o faço por obrigação, a azia e a dor me consomem.
 Deprimida, não saio de casa simplesmente. Sofro muitos dias antes, tenho taquicardia e imagino cada um dos meus atos. Tudo que não segue o roteiro, me enlouquece. Conto os segundos para voltar e me jogar no quarto.
 Deprimida, não durmo simplesmente. Posso olhar para o escuro durante horas. Vou e volto do banheiro a noite inteira. Começo a rir sentindo as lágrimas nos olhos com o desejo de dormir e não acordar. Logo me engano que serei outra no dia seguinte.
 Às vezes, porém, até consigo dormir. Porém, ao acordar, o corpo está exausto, suado, a mente desorientada... Eu costumava adorar dormir. Era um refúgio. Mas a dor me achou lá também. E agora tenho medo do sono, tenho medo da noite. Me seguro até o último segundo até meu corpo desistir e desabar. E então vivo horas de verdadeiro horror. As cenas mais cruéis e agonizantes se estampam em meus pesadelos.
 Deprimida, não vivo simplesmente. Eu penso a vida e não a vivo. Não sei parar de pensar. E não penso em nada. É extremamente cansativo que cada simples movimento para viver no mundo exija tanto e cause tanto. Se nos outros não parece ser assim. Seria bom não suar frio quando preciso ir a algum lugar ou tem de cumprimentar alguém. Seria bom sentir vontades, desejos em um sábado à noite, em um feriado qualquer. É absurdo, louco, da vontade de fugir de dentro da gente, dessa casca estragada, dessa prisão suja e complicada. Tudo dói demais, tudo é muito, tudo é desafio, tudo exige... Ao mesmo tempo tudo é nada,  tudo é oco, tudo é vago.
 E a gente sempre espera que quem nos ama, que quem tem o nosso coração nas mãos, aquelas pouquíssimas pessoas a quem a gente se entregou, que estas, elas nos segurem um pouquinho na vida. Mas é um grande erro, talvez o pior de todos. Quando alguém nos solta, é um pouquinho mais doloroso do que o normal. O deprimido morre com cada coisa que vai embora. Cada um que o apunhala, leva seu sangue na navalha, e seus olhos, e sua carne. Ele vai junto. Morre junto.
 Agora não dá pra subir na corda. Parei, mas o mundo continua correndo. Todos avançam, mas eu estou lá atrás em silêncio, tentando juntar os cacos quebrados. São tão pequenos que não consigo colar. Me cortam, entram debaixo da unha e a tarefa é tão longa que me desanima, me irrita, me deixa em agonia. Não faz diferença, talvez, seguir sem uma parte de mim. Outras já ficaram antes.
 Mas o começo não é fácil. As pessoas prosseguem te ferindo. Você sofre, não tanto pela maldade, mas muito pelo amor que segue agonizando e não morre logo pra te livrar. Sofre por sentir que jamais faria o mesmo com aquela pessoa tão querida e que os desejos silenciosos de vingança, não são reais como gostaria. Você segue desejando o bem, ainda que sinta ser a coisa mais estúpida de se sentir. Mas é assim que você é. Bondoso e besta. E deprimido...
 Muitas pessoas não compreendem e nem nunca compreenderão como uma gota de maldade pode te desequilibrar dessa forma. Elas nunca viram, nem nunca estiveram na corda bamba. Não entendem que, quem vive nela, está sempre a um sopro de cair.

É por isso que assopram.

OBS: Texto de 2014. A coragem de expor só surgiu agora que tudo isso não está mais em mim.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa, o que dizer deste texto? Você, Aline, consegue fazer algo sublime. Você consegue mostrar nitidamente um pouco da dor que alguém com depressão carrega. Dor essa que parece ir além das limitações que esse transtorno pode acarretar na vida do sujeito que o apresenta. Você aponta também a dor de alguém que não pode ou não tem com quem dividir. Porque algumas pessoas não estão preparadas para lidar ou não querem se doar um pouco para atravessar esse árduo percurso que é a depressão. Quem consegue forças para levantar da cama e ir em busca de tratamento só pode ser considerada guerreira, pois sabemos o quanto esse transtorno é limitador. E quem ainda não conseguiu tal feito, não deve-se sentir culpado, pois, sabemos que isso não é invenção de sua cabeça, a depressão existe sim e deve-se ser levada em consideração.

Aline, se escrever te faz bem continua, pois você faz isso incrivelmente bem.
Abraços!

Cah Souza disse...

Sempre me emociono com suas palavras, independentemente se são as de sofrimento, de superação, de romance... Você tem o dom perfeito da escrita, e não pare nunca de usá-lo. É um bem para você que escreve e um bem para quem lê. Já falei inúmeras vezes o quanto te admiro, te acompanho há anos e sei o tamanho enorme do seu talento. Esse texto é incrível e descreveu exatamente o que passei há pouco tempo. Chorei lendo. Não tinha como não me emocionar... Obrigada por me dar a oportunidade de ler o que sinto vontade de contar ou falar.

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